domingo, 12 de agosto de 2012

Desde o chão

(Imagem: Karin Rosenthal)




A pele porosa do silêncio
agora que a noite sangra nos pulsos
traz-me o teu rumor de chuva branca.


O verão anda por aí, o cheiro
violento da beladona cega a terra.
Cega também, a boca procura
trabalhos de amor. Encontra apenas
o nó de sombra das palavras.


Palavras... Onde um só grito
bastaria, há a gordura
das palavras. Palavras -
quando apetecem claridades súbitas,
o sumo estremece, a ponta extrema
do teu corpo, arco, flecha,
corola de água aberta
ao fogo a prumo do meu corpo.


Do chão ao cume das colinas,
eis as areias. Cala-te.
Deita-te. Debaixo dos meus flancos.
A terra toda em cima. Agora arde. Agora.




Eugénio de Andrade

2 comentários:

  1. Daniella,

    É o paraíso vir aqui!
    Como pinças o que há de mais refinado em poesia, nossa! Obrigada sempre pelas partilhas que me vão direto ao coração.
    Um grande beijo,
    Lila.

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  2. A nº 1 das escolhas - és tu.

    beijos da El

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