sábado, 25 de fevereiro de 2012

Quando Eu Morrer

(Imagem: Luke Elwes)




Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra.


Deixa que nos meus braços pousem então as aves ( que, como eu,
trazem entre as penas a saudade de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na baínha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou ( e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti).


Quando eu morrer, deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo e não chores,
nem toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.




Maria do Rosário Pedreira


2 comentários:

  1. Una MARAVILLA tus poemas!!!
    Un saludo, Maribel M.B

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  2. A transpassante lucidez que a alma construiu
    E fiel a si, até o último minuto,
    respira partículas de insuspeita devoção
    Vive a poesia
    colada em tudo o que existe

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