terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Peixe e o Pássaro

(Imagem: Angela Bacon Kidwell)





A POSSE

  A estória é minha mas o passarinho e o peixinho
 não são meus.
Até que é fácil possuí-los. Basta um aquário e
 uma gaiola.
 Mas não me importa tê-los na mão. Aprendo a me
 satisfazer pelos olhos, assim como os pássaros e peixes
 que não têm mãos.



A SURPRESA

 Vocês percebem que minha história é de amor.
 Amor de peixe e de pássaro. Como é o seu início eu não sei.
 Acredito que nem os namorados sabem.
 A gente só sabe que gosta quando está gostando.
 O tempo aqui não tem a mínima importância.



NOVAMENTE O TEMPO

 Deve ser meio dia. Estou assentado sobre minha sombra.
 Não existe vento. Tudo está parado no seu devido lugar:
 pássaro no ar, peixe na água e eu na terra.



A MINHA SOLUÇÃO

 Quero construir uma gaiola conjugada com um aquário
 e deixá-los juntos.
 Minha ideia me entristece como os compromissos
 aceitos com antecedência.



O FIM

 Escurece no céu e o escuro se reflete nas águas.
 Não vejo mais o peixe nem o pássaro.
 Volto no dia seguinte aos meus compromissos e penso:
  peixe e pássaro vivem pouco
   mas vivem muito num só dia só.





Bartolomeu Campos de Queirós

2 comentários:

  1. Unhas máns de escamas protexendo os segredos ou ofrecéndo algo, ou a sí mesmas.

    Fermoso espazo.

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  2. Uns 'voos' assim por vezes nos retiram daquele dia-a-dia em que nada se vê, e nem se percebe, e nada (as)sombra. Belo poema-reflexão.

    beijos da El

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