quinta-feira, 20 de outubro de 2011

PRELÚDIOS INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR

(Imagem: Josephine Sacabo)






Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
 Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
 Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
 Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
 Devo gritar a minha palavra, uma encantada
 Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.
 


Hilda Hilst

Nenhum comentário:

Postar um comentário