sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O Amor, por Edgar Morin

(Imagem: Marcelo Lyrio)








A sabedoria deve saber que traz em si uma contradição: é louco viver muito sabiamente.
Devemos reconhecer que, na loucura que é o amor, há a sabedoria do amor.
O amor da sabedoria (filosofia) tem falta de amor.
O importante na vida é mesmo o amor.
 Com todos os perigos que carrega.

 


Nesse momento, projetamos sobre outrem essa necessidade de amor, fixamo-la, endurecemo-la e ignoramos o outro que se tornou na nossa imagem, no nosso totem.
Ignoramo-lo, crendo adorá-lo.
Aí está, na verdade, uma das tragédias do amor, a incompreensão de si mesmo e do outro.
Mas a beleza do amor é a interpenetração da verdade do outro em si e da de si no outro, é encontrar a sua verdade na alteridade.




E isto é também a tragédia: trazemos em nós uma tal necessidade de amor, que por vezes um encontro no momento certo - ou talvez no momento errado - desencadeia o processo da fulminação e da fascinação.



Eu diria sobre o amor o que digo em geral sobre o mito.
A partir do momento em que um mito é reconhecido como tal, ele deixa de o ser.
Chegamos a este ponto da consciência em que nos damos conta de que os mitos são mitos.
Mas apercebemo-nos ao mesmo tempo de que não podemos privar-nos de mitos.
Não se pode viver sem mitos; e incluirei entre os ‘mitos’a crença no amor, que é um dos mais nobres e mais fortes e talvez o único mito a que nos deveríamos agarrar.




Então o que é o Amor?
É o auge da união da loucura e da sabedoria. Como esclarecer isto?
É evidente que é o problema que afrontamos na nossa vida e não existe nenhuma chave para encontrar uma solução exterior ou superior.
O amor traz, precisamente, esta contradição fundamental, esta co-presença da loucura e da sabedoria.




Estamos condenados ao paradoxo de conservar em nós, simultaneamente, a consciência da vacuidade do nosso mundo e a da plenitude que nos pode trazer a vida, quando quiser ou puder.
Se a sabedoria nos pede para nos desprendermos do mundo da vida, será ela verdadeiramente sábia?
Se aspiramos à plenitude do amor, seremos nós verdadeiramente loucos?


 
Edgar Morin

Um comentário:

  1. O que é o amor? Será possível elucidar o conceito de amor, defini-lo, apreendê-lo em uma tese ou em um raciocínio? Não é o amor um tema para os artistas, especialmente para os poetas, já calejados por suas dores transpostas em versos?
    É sintomático que Morin só consiga 'defini-lo' por analogias e um paradoxo: coragem de um teórico que ousa adotar um pouco de loucura para obter clareza em uma reflexão atípica.
    Que o amor é para ser vivido e não para ser pensado é lugar-comum que poucos desafiam. Daí a beleza do gesto de nossa poeta, Daniella, que, aspirando à plenitude do amor, quer amar e buscar conhecer o amor.
    Beijo.

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