quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Intermezzo

(Imagem: André Kértesz)



 
Desperto no meio da noite
observo o sono de minha mulher:
o sangue substantiva as pessoas.

Os corpos em silêncio: ela dorme.
O pó das luzes desaba sobre nossa pele
e as lâmpadas esboroam dentro do sono.

Bruscamente um deles nos visitou
pude ouvir a respiração ofegante
o câncer correndo pelos pulmões.

Sorriu para mim. Saiu do quarto.
Os pequenos intervalos da vida:
Estará na sala? Foi comprar cigarro?

De noite respiramos circulamente
num difícil acordo entre os corpos.
Paz pertubadora. Ainda nos veremos?

Uma luz selvagem desce pela cidade.
O telefone prepara a notícia oclusiva
e surda. Atendo: sou cúmplice dos dias.



 
Augusto Massi

Um comentário:

  1. Essa foto do Kértész é extraordinária, e casou muito bem com o poema, Daniella.

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