segunda-feira, 19 de setembro de 2011

(Imagem: Antoni Tàpies)


 

Lixo as unhas no escuro, escuto, estou encostada à parede no vão da escada, escuto-me a mim mesma, há uns vivos lá dentro além da palavra, expressam-se mas não compreendo, pulsam, respiram, há um código no centro, um grande umbigo, dilata-se, tenta falar comigo, espio-me curvada, winds flowers astonished birds...


Um dia me disseram: as suas obsessões metafísicas não me interessam, senhora D, vamos falar do homem aqui agora. que inteligentes essas pessoas, que modernas, que grande cu aceso diante dos movietones, notícias quentinhas, torpes, dois ou três modernosos controlando o mundo, o ouro saindo pelos desodorizados buracos, logorréia vibrante moderníssima, que descontração, um cruzar de pernas tão à vontade diante do vídeo, alma chiii, morte chiii, falemos do aqui agora.


Tens uma máscara, amor, violenta e lívida, te olhar é adentrar-se na vertigem do nada, iremos juntos num todo lacunoso se o teu silêncio se fizer o meu, por isso falo falo, para te exorcizar, por isso trabalho com as palavras, também para me exorcizar a mim, quebram-se os duros do abismo, um nascível irrompe nessa molhadura de fonemas, sílabas, um nascível de luz, ausente de angústia.
Melhor calar quando teu nome é paixão.


 
Fragmentos de A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst

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