quinta-feira, 14 de julho de 2011

FOME - 1947

I
Eu estava diante da mesa nua em que jazia ela.
A choupana vazia - parece uma gaveta de não sei que relógio universal, indiferente - oco - como se tivesse batido, até, o sussurro.
E havia ainda minha mãe (é estranho - eu sei - não lembro).
Gostaria de que tudo estivesse ainda mais vazio - dava vontade de bater - em todas as paredes nuas - caminhando prolongadamente - com martelo ou machado - mas - sozinho.
Ela jazia - alongada, imensamente, tudo "natural" - perante o infidável do silêncio e dos trapos: bandeirolas estraçalhadas mortalmente a meio-pau! - "cautelosamente" - na beirada da mesa.
E as pernas - a lã com furos: meias. Como se tivesse subido - para estas tábuas nuas - sozinha, vinda da horta - do mormaço incandescido! - como se - já então estivesse morta.
Tendo comido para muito tempo, fico argumentando - agora, 1979 - eu já consigo.

II
Quando um faminto vive com fome, um ano, dois, três e assim por diante, ele nem sabe que deseja comer, e assim - constantemente - vive apenas pela sua "condição" - como se fosse para sempre! - mas decorrido um ano, dois, três, e apresenta-se a oportunidade de tomar consciência: o que ele quer - é comer.
E eis que, naquele verão, daqueles dois anos, daqueles três, surgiu-meu semelhante caso - único - um caso colorido (ele era: assim).
Eu fui avançando, as pernas dela deixaram de esconder o rosto.
O rosto, enorme-inchado, que fora operário-vermelho, cavalar-vermelho, permanecera o mesmo, ainda, enorme-inchado - mas - agora a luzir... - fresco, apelativo... - engomado. E finalmente, assemelhava-se a uma batata - sem feridas, sem ocelos - justamente agora, liberta da casca, e que luz com frescor! Ligeiramente esfriado. (Nunca vou esquecer, como se eu tivesse visto ontem - sim, estas palavras são as mais exatas).
E me deu uma vontade incrível de comer.
Aproximar-me, polvilhar lentamente de sal. Isto é inerente à batata, estomacal - belo (oh, ainda haverá "poesia", eu serei). Isto - com sal - e é isto, precisamente isto.
Comer.

Guenádi Aigui

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